terça-feira, 21 de maio de 2013

O mundo é muito maior que nosso umbigo, mas não adianta. Bolsa Família é "Bolsa Esmola", "Bolsa Vagabundo"


 Não queria escrever este texto. Em redes sociais, relutei e queria observar de canto a discussão que veio a tona sobre o Bolsa Família. Neste último final de semana, um boato sobre o fim do programa assistencial levou milhares de pessoas a agências da Caixa e Lotéricas para sacar o benefício.

Foi o estopim para o assunto explodir na internet de maneira depreciativa. No Facebook, a tentativa de desviar o olhar de comentários como “Bolsa esmola”, “Bolsa Vagabundo”, me embrulhava o estômago. Assim, comecei o exercício para (des) assinar o ‘feed’ de notícias de algumas pessoas - depois que caí na armadilha de entrar em um debate. Não dá. Nenhum argumento é plausível na ‘defesa’ de um ‘vadio’ que ‘mama nas tetas’ do governo. Caso o faça, não demora cinco minutos para ser chamado de petista. É semelhante à mãe com vários filhos que só beneficia o mais ‘carente’. Isso com o ‘agravante’ de que o outro filho paga pelo necessitado. A revolta impera. Feche os olhos e corra com o mouse para fugir das asneiras.   

Mesmo assim, em um atentado contra a gastrite, e consciente do que iria encontrar, resolvi acompanhar o que se falava nas páginas de grandes jornais no facebook.  Por lá, os comentários dos internautas aprofundavam a discussão para um poço de indignação e raiva. O discurso era claro: “O povo se aproveita deste donativo do governo, fica acomodado e ‘permanece’ na vagabundagem”, escreveu um rapaz apoiado por muitos. E o tema que auxilia quase 14 milhões de pessoas começou a ser ‘esmiuçado’: “as mulheres abrem as pernas só para receber mais bolsa.”, refletiu uma universitária. “E o filho ainda pode virar um ladrão ou assassino”, alertou um senhor que não tive coragem de acessar o perfil. É a máxima neoliberal do peixe, com requintes de preconceito. Se você o quer, vá pescá-lo, vadio. Qualquer pessoa pode ter um futuro bom se trabalhar, correr atrás do pão de cada dia. Só basta querer. Certo?

Alguns mais velhos justificam que começaram do nada, com ‘uma mão em um bolso e outra atrás’, como diz o velho ditado. E através do trabalho conquistaram bens e uma vida próspera. Um argumento como esse, com centenas de ‘likes’, foi aplaudido em pé na rede social. Ovacionado. No entanto, é bom lembrar que as regras do jogo capitalista não são as mesmas que 50 anos atrás. O jornalismo, por exemplo, tem inúmeros casos de quem começou de baixo e cresceu, tornando-se excelente profissional. Hoje, esse é o jornalismo considerado romântico, que não existe mais. Quer ser jornalista? Tenha um diploma. Todas as empresas vão pedir, mesmo sendo artigo desnecessário, segundo o STF. Na indústria, a tecnologia era inferior e não necessitava de tanta qualificação como hoje.  Outros citam poucos casos de pessoas que emergiram na sociedade hoje em dia por conta de seu trabalho e determinação. “Esses” correm atrás de seus objetivos. O 'resto' depende do governo e tem seu voto "comprado" por esses trocados que são pagos pela classe média. São 'pobres coitados', massa de manobra que é enganada pelo governo - que só busca votos. Entretanto, pode-se falar o que quiser sobre políticas populistas porque qualquer uma que seja implantada para favorecer os mais necessitados será taxada de 'compra de votos'. "Esse 'PT' é muito esperto, né", diz um jovem que não tinha idade suficiente para recordar que o primeiro programa assistencialista em âmbito nacional ocorreu no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Batizado de 'Bolsa Escola', o programa ajudou 4 milhões de pessoas.   

Agora, ao receber como herança um barraco insalubre com um punhado de farinha, passando fome, quero ver esse discurso ser entoado. “Blogueiro hipócrita”, alguém certamente deve bradar. “Você não sabe o que é isso e vem falar a respeito”. Ou chamar este “hipócrita” de “chato” e “burro” por “pagar a conta” destes ociosos. Passado o momento de ‘desqualificação’ deste que vos escreve, quem pode dizer onde existe trabalho para um rapaz analfabeto - que não teve acesso à escola, por conta do trabalho para sobreviver – na região metropolitana de São Paulo? Com trabalhos esporádicos, quando consegue, recebe entre R$ 70 e R$ 150. É possível viver desta maneira? É possível comprar remédios anticoncepcionais ou camisinhas? Como seria para você viver um mês desta maneira? Um ano? Bom, primeiro é necessário sair rapidinho da internet, afinal, a conta no fim do mês saí por volta de R$ 100. E como seria 'escapar' deste fosso que é a falta de qualificação profissional e educacional com renda diminuta, trabalhando, quando possível, 12 horas por dia? O Brasil tem 12,9 milhões de pessoas analfabetas, segundo relatório de 2012 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad).

Porta de saída

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 1,69 milhão de famílias deixaram espontaneamente o programa, alegando que sua renda havia ultrapassado o limite de R$ 140 por pessoa. Estas famílias representam 12% em um universo de 14 milhões de beneficiários. Para aumentar a  desistência, é necessário instaurar um programa de qualificação profissional atrelado ao benefício. Esta é a melhor porta de saída para o Bolsa Família, e já existem diversos casos de cooperativas e associações que fazem a inserção das pessoas no mercado do trabalho.  

Críticos do programa

Após ler este texto, e de me criticar um bocado, aposto que nenhum parágrafo teve a concordância dos  ferrenhos defensores do trabalho. Mas será que não entra na cabeça deles que o beneficiário necessita deste dinheiro para complementar sua renda, para lutar com o mínimo necessário para sobreviver, em busca da saída desta condição de extrema miséria, enraizada no país há séculos? Acho que não.  E começo cada vez mais a entender a reflexão profunda que a professora Marilena Chauí lançou outro dia. A filósofa fez duras críticas à classe média. “A classe média é uma abominação política, porque é fascista, é uma abominação ética porque é violenta, e é uma abominação cognitiva porque é ignorante. Fim”, concluiu. Ao observar algumas discussões a respeito de temas polêmicos como o Bolsa Família, o pensamento de Marilena Chauí faz muito sentido. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário