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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Veja dez maneiras de passar o tempo dentro do carro na cidade de São Paulo.

1- Espie de lado as manchetes dos jornais distribuídos gratuitamente nos semáforos. Informação é tudo.

2- Recorra à conversa com um amigo, aquele que é guardado no lado esquerdo do peito, dentro do bolso da camisa Scotch Soda. O smartphone nesse momento é, muitas vezes, a única “companhia”.

3 - O aparelho GPS sintoniza os canais abertos. Neste caso, o problema é se ver na Marginal na segunda edição do jornal da noite, no meio de uma multidão de luzes. Deprime um pouco, é verdade. Melhor ligar o rádio em algum programa de humor.

4 – Para os mais antigos, conservadores, que tal um bom joguinho de palavras cruzadas? Só não vale espiar as respostas no canto inferior, hein!

5 – Utilizar bolas terapêuticas chinesas em massagem para as mãos na busca da integridade mental, física e espiritual. Renovação.

6 – Olhar o celular novamente. Deve ter alguma novidade legal na rede social favorita.

7 –Contar o tempo no deslocamento entre um semáforo e outro para fazer a comparação com outros dias. Estatísticas são sempre bem vindas. Cronômetro na mão: valendo!!!

8- Que tal então ler a placa do carro da frente, refletindo na combinação de letras, números, e nas infinitas possibilidades de aquilo ser um sinal do destino de que tudo vai melhorar, a começar pelo trânsito. Numerologia em alta.  Positividade.

9 - Na descrença do item oito, buzinar afoitamente, e colocar a indignação seletiva para fora do peito, xingando o seu partido político predileto faz muita diferença. Acalma prontamente.

10- Abrir a janela, acenar com a mão, e mandar um beijo de volta para o colega que acabou de passar em alta velocidade pelo corredor de ônibus. Carinho no coração. Existe amor em SP.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Aviso: você está sendo filmado!

Foto: Fabrício Amorim
O médico recomendou à dona Elizabeth caminhar frequentemente para melhorar a saúde. Que boa oportunidade para sair com Francisco e Josephine, retirando a responsabilidade de Maria, que além das obrigações na casa tinha que passear com ‘Chico’ e ‘Phine’. Mas não os chame pelo apelido. Dona Elizabeth acredita que invocá-los desta maneira pode alterar o comportamento do lhasa apso e da yorkshire. 

Depois de um mês de atividade diárias, Elizabeth já se sentia diferente. Sair bem cedo para caminhar na praça bem próxima de sua casa em um bairro nobre da capital paulista junto com seus amigos tornou-se uma rotina divertida. Entretanto, ficou chocada numa bela manhã de sol ao perceber que a sola de seu sapato estava suja por causa de fezes humanas. Para o excremento de seus cães não ligava muito, se fazia de despercebida, quase não via o cachorro agachado. É um animal, ora. Agora, a mesma atitude vinda de um ser humano era diferente, totalmente desrespeitoso, verdadeiro insulto, e aquilo a incomodava demais. Com isso, iniciou diálogos calorosos com os vizinhos, carregados de revolta. A balbúrdia logo juntou meia dúzia de pessoas e a solução não tardou: resolveram colocaram placas de avisos próximas aos pontos asquerosos: “não faça cocô, respeite as crianças. Obs. Você está sendo filmado”. 

A câmera era um blefe. O aviso, contundente.

Na saída da praça, dona Elizabeth cumprimentou o segurança que, junto a outros colegas, faz o monitoramento 24 horas da rua – que tem menos de 1 quilômetro de extensão. Trajados de roupa social, terno e gravata, capacete e moto, os profissionais comunicam-se diretamente com a base em caso de alguma atitude suspeita ou crime. O pior turno é o noturno. Apesar de nenhuma ocorrência nas proximidades, os moradores sempre intensificam os apelos por cautela. 

Naquela noite, o trabalho era de Edmílson, que não gosta nem um pouco da tarefa naquele horário. O segurança tem dificuldade para dormir durante o dia, no barulhento prédio popular em que vive no bairro do Jardim São Luís. Fora que, jantar antes do trabalho era um dilema: seu recente problema no intestino estava pregando verdadeiras peças de terror na noite fria. Não há um único banheiro em um raio de quilômetros. Quando isso ocorre, sempre pensa em milhares de alternativas, mas não pode ausentar-se por muito tempo: tem que ficar olhando a movimentação da rua silenciosa. Então, a saída encontrada é encostar a moto e escolher o canto mais escuro da praça para se aliviar. 

O mais indicado, no entanto, seria tocar a campainha da Dona Elizabeth, que geralmente dorme em sono profundo, protegido por muros enormes, grades eletrificadas, e, por Edmílson. Mas é claro que incomodar a madame com um pedido 'inconveniente' nem passa pela cabeça do segurança. Assim a vida continua, arraigada pelos ditames paradoxos de quem pode mais.