terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Deputado Marco Feliciano quer o holofote sobre si. E sua estratégia obtém sucesso

Alguém ainda dúvida que todas as polêmicas abertas pelo deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP – legenda sob o domínio da Assembléia de Deus) são milimetricamente calculadas? (Não por Jesus, calma).Obvio que Feliciano pavimenta seu mandato com as bandeiras que defende representando a quem o elegeu na Câmara. Mas me refiro ao esforço sobrenatural para estar na boca do povo.

Com uma equipe por trás dele (assim como todos os outros parlamentares), Feliciano aproveita a notícia mais importante/espinhosa da semana ou do mês para fazer algum comentário descabido, geralmente carregado de preconceito e desconhecimento histórico.

Veneno em dose certa. Boa parte da mídia repercute o que foi dito pelo deputado, ampliando os tentáculos dos sociais cristãos que aproveitam o domínio da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para fazer balcão político. Tradicionalmente nas mãos do PT, o partido abriu mão da CDHM em prol de acordos em nome da problemática governabilidade. “Nunca me passou pela cabeça presidir a Comissão de Direitos Humanos, mas agora, com tanto ataque, até deu vontade”, disse o deputado na época em que sofria muita pressão para deixar o cargo. 

Desde então, Feliciano causou controvérsia e indignação com declarações vis sobre negros, gays, aborto, e, recentemente, Nelson Mandela, colocando seu nome em cartaz neon para mais uma discussão que se desenvolve como um novelo de lã nas redes sociais, nos botecos, nos elevadores, em diversas ONGS, etc. 

As comissões da Câmara aprovam projetos que podem entrar na pauta do plenário da Casa. Entretanto, nenhum projeto envolvendo gays, igreja ou negros chegaram próximos (longe disso) de entrar em debate, pois todos foram desqualificados logo após deixarem à sala da CDHM.

O pastor Silas Mafalafaia já avisou que troca de nome se Feliciano tiver menos de 400 mil votos no pleito de 2014, em que tentará à reeleição para deputado federal. Em 2010, o presidente da Comissão de Direitos Humanos obteve 211 mil votos. Com a CDHM no colo, Feliciano conseguiu o holofote que desejava, aparecendo para seus eleitores, “mostrando serviço” a quem depositou sua confiança nele, e a quem acredita em suas idéias.  

De polêmica em polêmica, Feliciano ganha mais uma manchete, coloca mais um tijolo na parede na sua escalada política que, convenhamos, vai deixando o baixo clero para ganhar alguma significância. Estratégias de guerrilha política, de quem sabe jogar. Feliciano está bem assessorado, conhece os aliados, os alvos, e parece preparado para tudo.

“Fale mal
Mas fale de mim
Não faz mal
Quero mesmo assim” (Ataulfo Alves)

Algumas frases de Feliciano nas redes sociais:

“A podridão dos sentimentos dos homoafetivos, levam ao ódio, ao crime, a rejeição”

“Respondi a deputado que: negro nasce negro, índio nasce índio, mas homossexual não nasce homossexual”.

“Os artistas são a favor do casamento gay. Os intelectuais também são. Resta aos cristãos e conservadores de valores morais lutarem”.

“Pois depois da União Civil vira a adoção de crianças por parceiros gays, a extinção da palavra pai e mãe, a destruição da família”.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Veja dez maneiras de passar o tempo dentro do carro na cidade de São Paulo.

1- Espie de lado as manchetes dos jornais distribuídos gratuitamente nos semáforos. Informação é tudo.

2- Recorra à conversa com um amigo, aquele que é guardado no lado esquerdo do peito, dentro do bolso da camisa Scotch Soda. O smartphone nesse momento é, muitas vezes, a única “companhia”.

3 - O aparelho GPS sintoniza os canais abertos. Neste caso, o problema é se ver na Marginal na segunda edição do jornal da noite, no meio de uma multidão de luzes. Deprime um pouco, é verdade. Melhor ligar o rádio em algum programa de humor.

4 – Para os mais antigos, conservadores, que tal um bom joguinho de palavras cruzadas? Só não vale espiar as respostas no canto inferior, hein!

5 – Utilizar bolas terapêuticas chinesas em massagem para as mãos na busca da integridade mental, física e espiritual. Renovação.

6 – Olhar o celular novamente. Deve ter alguma novidade legal na rede social favorita.

7 –Contar o tempo no deslocamento entre um semáforo e outro para fazer a comparação com outros dias. Estatísticas são sempre bem vindas. Cronômetro na mão: valendo!!!

8- Que tal então ler a placa do carro da frente, refletindo na combinação de letras, números, e nas infinitas possibilidades de aquilo ser um sinal do destino de que tudo vai melhorar, a começar pelo trânsito. Numerologia em alta.  Positividade.

9 - Na descrença do item oito, buzinar afoitamente, e colocar a indignação seletiva para fora do peito, xingando o seu partido político predileto faz muita diferença. Acalma prontamente.

10- Abrir a janela, acenar com a mão, e mandar um beijo de volta para o colega que acabou de passar em alta velocidade pelo corredor de ônibus. Carinho no coração. Existe amor em SP.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os tentáculos da especulação imobiliária

Avenida Faria Lima, São Paulo (SP)
Foto: Fabrício Amorim
Na primeira hora da manhã, uma oferta imperdível ocupava quase toda a página. O anúncio oferecia três quartos, duas suítes, três vagas na garagem. Uma bagatela que proporciona “conforto” e “alta segurança”. O café desceu bem, acompanhado da leitura do título da matéria do jornal e das primeiras linhas, que chamaram menos atenção que o novo empreendimento - tão bem localizado.

No caminho do trabalho o trânsito mais uma vez estava sufocante. O calor dentro do carro era insuportável. Tarefa tranquila para o ar condicionado resolver. Com o rádio ligado, o locutor se esgoelava para abafar a voz de seu companheiro num debate sem pé nem cabeça sobre o aumento do IPTU na cidade de São Paulo.

Loucura urbana misturada à indignação desmesurada. Abaixou o volume. Pagar 20% a mais de imposto incomodava, mas não o suficientemente naquele momento. A insatisfação era maior com a fila de veículos a sua frente que não se movia. Quase todos os dias eram assim. Morar a cinco quilômetros do trabalho não aliviava. Pelo contrário.

A região que foi definida como a “nova” Avenida Paulista no final dos anos 1970, hoje, possui uma “densidade empresarial” que torna todos os dias a selva de concreto um ambiente mais selvagem na “hora do rush”. E há mais espaço para enaltecer o progresso, mesmo que isto tenha um alto custo diretamente refletido na morosidade diária do trânsito por conta do transporte individual. 

Não teve jeito. Mais uma vez chegou irritado, com dor de cabeça. Acalmou-se e ligou o computador, ferramenta inseparável e indispensável. Durante a labuta informava-se através dos portais, links no Twitter e nas páginas do Facebook, sua rede social favorita, onde adora repercutir sua indignação com a política. Entre uma curtida e outra não deixava de notar os anúncios de imóveis colocados perto do lembrete de aniversários que sempre ganhavam um clique, o que também ocorria no Youtube antes dos seus vídeos prediletos. 

Fim do expediente, sexta-feira. Hora de relaxar. Mas só até o almoço de sábado no shopping, geralmente lotado. Até tentou negociar com a mulher e os filhos. Não conseguiu. Bem próximo ao paraíso do consumo, frequentado toda semana pela família, avistou diversas meninas agitando bandeiras e fazendo panfletagem de um condomínio que se dizia inovador, sustentável e que, ainda por cima, era próximo de seu trabalho. Maravilhoso. Era um “sinal”. Aquilo o encantou e resolveu parar – sob protesto. Para ele não importava.

Logo soube que o condomínio Green Castle terá saída para dois lados em um quarteirão, cinco vagas na garagem, espaço gourmet, brinquedoteca, ampla sala de ginástica, área de lazer com piscina, piscina coberta olímpica aquecida, quadras de tênis, quadras de futebol, segurança 24 horas com monitoramento em vídeo, serviços exclusivos, e muito mais. Um projeto arquitetônico “exclusivo” e “moderno” em uma região privilegiada da cidade. Fantástico. Tinha somente a desvantagem de o apartamento ser pequeno – 40 m², dois quartos, dois banheiros, sala, cozinha, área de serviço e varanda. Não era um obstáculo, mas resolveu pensar com calma.

Não podia negar desde já que se sentia acolhido e realizado, pois pensava há muito tempo em mudar de bairro, reduzindo distâncias que geravam muito tormento. Nada melhor então, que morar no novo “coração pulsante” de São Paulo que varre, isola, segrega, entre uma “batida” e outra para garantir a comodidade e a segurança dos novos moradores. Quem liga para isso? No final das contas o que importa é a fluidez para realizar as transformações necessárias ao progresso, seja lá qual for o preço.    

Negócio fechado.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Aviso: você está sendo filmado!

Foto: Fabrício Amorim
O médico recomendou à dona Elizabeth caminhar frequentemente para melhorar a saúde. Que boa oportunidade para sair com Francisco e Josephine, retirando a responsabilidade de Maria, que além das obrigações na casa tinha que passear com ‘Chico’ e ‘Phine’. Mas não os chame pelo apelido. Dona Elizabeth acredita que invocá-los desta maneira pode alterar o comportamento do lhasa apso e da yorkshire. 

Depois de um mês de atividade diárias, Elizabeth já se sentia diferente. Sair bem cedo para caminhar na praça bem próxima de sua casa em um bairro nobre da capital paulista junto com seus amigos tornou-se uma rotina divertida. Entretanto, ficou chocada numa bela manhã de sol ao perceber que a sola de seu sapato estava suja por causa de fezes humanas. Para o excremento de seus cães não ligava muito, se fazia de despercebida, quase não via o cachorro agachado. É um animal, ora. Agora, a mesma atitude vinda de um ser humano era diferente, totalmente desrespeitoso, verdadeiro insulto, e aquilo a incomodava demais. Com isso, iniciou diálogos calorosos com os vizinhos, carregados de revolta. A balbúrdia logo juntou meia dúzia de pessoas e a solução não tardou: resolveram colocaram placas de avisos próximas aos pontos asquerosos: “não faça cocô, respeite as crianças. Obs. Você está sendo filmado”. 

A câmera era um blefe. O aviso, contundente.

Na saída da praça, dona Elizabeth cumprimentou o segurança que, junto a outros colegas, faz o monitoramento 24 horas da rua – que tem menos de 1 quilômetro de extensão. Trajados de roupa social, terno e gravata, capacete e moto, os profissionais comunicam-se diretamente com a base em caso de alguma atitude suspeita ou crime. O pior turno é o noturno. Apesar de nenhuma ocorrência nas proximidades, os moradores sempre intensificam os apelos por cautela. 

Naquela noite, o trabalho era de Edmílson, que não gosta nem um pouco da tarefa naquele horário. O segurança tem dificuldade para dormir durante o dia, no barulhento prédio popular em que vive no bairro do Jardim São Luís. Fora que, jantar antes do trabalho era um dilema: seu recente problema no intestino estava pregando verdadeiras peças de terror na noite fria. Não há um único banheiro em um raio de quilômetros. Quando isso ocorre, sempre pensa em milhares de alternativas, mas não pode ausentar-se por muito tempo: tem que ficar olhando a movimentação da rua silenciosa. Então, a saída encontrada é encostar a moto e escolher o canto mais escuro da praça para se aliviar. 

O mais indicado, no entanto, seria tocar a campainha da Dona Elizabeth, que geralmente dorme em sono profundo, protegido por muros enormes, grades eletrificadas, e, por Edmílson. Mas é claro que incomodar a madame com um pedido 'inconveniente' nem passa pela cabeça do segurança. Assim a vida continua, arraigada pelos ditames paradoxos de quem pode mais.