quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ao "pé da letra"

É ironia, porra!
Os elementos necessitam de muito exagero porque quando a ironia é muito sutil, o vilão torna-se herói. Pior ainda quando se é um irônico incorrigível, viciado em injeções diárias de ironia para demonstrar, no meu caso, toda a indignação, revolta, sarcasmo, diante de uma situação.

É, leitor. Confesso que utilizar essa figura de linguagem não é fácil (para vocês). É crescente o número de pessoas que captam a mensagem ao “pé da letra”. Assim, o deboche, o sarcasmo, a sátira, a zombaria, são sequestrados e colocados em cativeiro - até morrerem de inanição.

A alimentação da interpretação de texto anda carente de todos os tipos de vitaminas. O principal agente deteriorante é a “falta de tempo”, que explica o motivo de a leitura ser escassa: seja de livros, revistas, jornais ou internet. A rapidez e o dinamismo diário servem como desculpa para a chamada “desatenção”, criando uma enorme bolha dentro da mensagem que tem seu conteúdo entendido de maneira literal.

Nos últimos tempos, o escritor Antonio Prata e o colunista Gregório Duvivier souberam bem como é, ao mesmo tempo, chato e divertido “jogar” com a ironia. Mas, diante da repercussão colossal tiveram que explicar seus textos na semana seguinte. Por isso, não há outro jeito senão avisar o leitor com um pequeno aviso no rodapé que aquele conteúdo, na realidade, é uma ironia. O aviso vale mais que a dor de cabeça posterior e que o aplauso do perdido.

Tristes tempos esses da "modernidade dispersa". 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Deputado Marco Feliciano quer o holofote sobre si. E sua estratégia obtém sucesso

Alguém ainda dúvida que todas as polêmicas abertas pelo deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP – legenda sob o domínio da Assembléia de Deus) são milimetricamente calculadas? (Não por Jesus, calma).Obvio que Feliciano pavimenta seu mandato com as bandeiras que defende representando a quem o elegeu na Câmara. Mas me refiro ao esforço sobrenatural para estar na boca do povo.

Com uma equipe por trás dele (assim como todos os outros parlamentares), Feliciano aproveita a notícia mais importante/espinhosa da semana ou do mês para fazer algum comentário descabido, geralmente carregado de preconceito e desconhecimento histórico.

Veneno em dose certa. Boa parte da mídia repercute o que foi dito pelo deputado, ampliando os tentáculos dos sociais cristãos que aproveitam o domínio da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para fazer balcão político. Tradicionalmente nas mãos do PT, o partido abriu mão da CDHM em prol de acordos em nome da problemática governabilidade. “Nunca me passou pela cabeça presidir a Comissão de Direitos Humanos, mas agora, com tanto ataque, até deu vontade”, disse o deputado na época em que sofria muita pressão para deixar o cargo. 

Desde então, Feliciano causou controvérsia e indignação com declarações vis sobre negros, gays, aborto, e, recentemente, Nelson Mandela, colocando seu nome em cartaz neon para mais uma discussão que se desenvolve como um novelo de lã nas redes sociais, nos botecos, nos elevadores, em diversas ONGS, etc. 

As comissões da Câmara aprovam projetos que podem entrar na pauta do plenário da Casa. Entretanto, nenhum projeto envolvendo gays, igreja ou negros chegaram próximos (longe disso) de entrar em debate, pois todos foram desqualificados logo após deixarem à sala da CDHM.

O pastor Silas Mafalafaia já avisou que troca de nome se Feliciano tiver menos de 400 mil votos no pleito de 2014, em que tentará à reeleição para deputado federal. Em 2010, o presidente da Comissão de Direitos Humanos obteve 211 mil votos. Com a CDHM no colo, Feliciano conseguiu o holofote que desejava, aparecendo para seus eleitores, “mostrando serviço” a quem depositou sua confiança nele, e a quem acredita em suas idéias.  

De polêmica em polêmica, Feliciano ganha mais uma manchete, coloca mais um tijolo na parede na sua escalada política que, convenhamos, vai deixando o baixo clero para ganhar alguma significância. Estratégias de guerrilha política, de quem sabe jogar. Feliciano está bem assessorado, conhece os aliados, os alvos, e parece preparado para tudo.

“Fale mal
Mas fale de mim
Não faz mal
Quero mesmo assim” (Ataulfo Alves)

Algumas frases de Feliciano nas redes sociais:

“A podridão dos sentimentos dos homoafetivos, levam ao ódio, ao crime, a rejeição”

“Respondi a deputado que: negro nasce negro, índio nasce índio, mas homossexual não nasce homossexual”.

“Os artistas são a favor do casamento gay. Os intelectuais também são. Resta aos cristãos e conservadores de valores morais lutarem”.

“Pois depois da União Civil vira a adoção de crianças por parceiros gays, a extinção da palavra pai e mãe, a destruição da família”.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Veja dez maneiras de passar o tempo dentro do carro na cidade de São Paulo.

1- Espie de lado as manchetes dos jornais distribuídos gratuitamente nos semáforos. Informação é tudo.

2- Recorra à conversa com um amigo, aquele que é guardado no lado esquerdo do peito, dentro do bolso da camisa Scotch Soda. O smartphone nesse momento é, muitas vezes, a única “companhia”.

3 - O aparelho GPS sintoniza os canais abertos. Neste caso, o problema é se ver na Marginal na segunda edição do jornal da noite, no meio de uma multidão de luzes. Deprime um pouco, é verdade. Melhor ligar o rádio em algum programa de humor.

4 – Para os mais antigos, conservadores, que tal um bom joguinho de palavras cruzadas? Só não vale espiar as respostas no canto inferior, hein!

5 – Utilizar bolas terapêuticas chinesas em massagem para as mãos na busca da integridade mental, física e espiritual. Renovação.

6 – Olhar o celular novamente. Deve ter alguma novidade legal na rede social favorita.

7 –Contar o tempo no deslocamento entre um semáforo e outro para fazer a comparação com outros dias. Estatísticas são sempre bem vindas. Cronômetro na mão: valendo!!!

8- Que tal então ler a placa do carro da frente, refletindo na combinação de letras, números, e nas infinitas possibilidades de aquilo ser um sinal do destino de que tudo vai melhorar, a começar pelo trânsito. Numerologia em alta.  Positividade.

9 - Na descrença do item oito, buzinar afoitamente, e colocar a indignação seletiva para fora do peito, xingando o seu partido político predileto faz muita diferença. Acalma prontamente.

10- Abrir a janela, acenar com a mão, e mandar um beijo de volta para o colega que acabou de passar em alta velocidade pelo corredor de ônibus. Carinho no coração. Existe amor em SP.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os tentáculos da especulação imobiliária

Avenida Faria Lima, São Paulo (SP)
Foto: Fabrício Amorim
Na primeira hora da manhã, uma oferta imperdível ocupava quase toda a página. O anúncio oferecia três quartos, duas suítes, três vagas na garagem. Uma bagatela que proporciona “conforto” e “alta segurança”. O café desceu bem, acompanhado da leitura do título da matéria do jornal e das primeiras linhas, que chamaram menos atenção que o novo empreendimento - tão bem localizado.

No caminho do trabalho o trânsito mais uma vez estava sufocante. O calor dentro do carro era insuportável. Tarefa tranquila para o ar condicionado resolver. Com o rádio ligado, o locutor se esgoelava para abafar a voz de seu companheiro num debate sem pé nem cabeça sobre o aumento do IPTU na cidade de São Paulo.

Loucura urbana misturada à indignação desmesurada. Abaixou o volume. Pagar 20% a mais de imposto incomodava, mas não o suficientemente naquele momento. A insatisfação era maior com a fila de veículos a sua frente que não se movia. Quase todos os dias eram assim. Morar a cinco quilômetros do trabalho não aliviava. Pelo contrário.

A região que foi definida como a “nova” Avenida Paulista no final dos anos 1970, hoje, possui uma “densidade empresarial” que torna todos os dias a selva de concreto um ambiente mais selvagem na “hora do rush”. E há mais espaço para enaltecer o progresso, mesmo que isto tenha um alto custo diretamente refletido na morosidade diária do trânsito por conta do transporte individual. 

Não teve jeito. Mais uma vez chegou irritado, com dor de cabeça. Acalmou-se e ligou o computador, ferramenta inseparável e indispensável. Durante a labuta informava-se através dos portais, links no Twitter e nas páginas do Facebook, sua rede social favorita, onde adora repercutir sua indignação com a política. Entre uma curtida e outra não deixava de notar os anúncios de imóveis colocados perto do lembrete de aniversários que sempre ganhavam um clique, o que também ocorria no Youtube antes dos seus vídeos prediletos. 

Fim do expediente, sexta-feira. Hora de relaxar. Mas só até o almoço de sábado no shopping, geralmente lotado. Até tentou negociar com a mulher e os filhos. Não conseguiu. Bem próximo ao paraíso do consumo, frequentado toda semana pela família, avistou diversas meninas agitando bandeiras e fazendo panfletagem de um condomínio que se dizia inovador, sustentável e que, ainda por cima, era próximo de seu trabalho. Maravilhoso. Era um “sinal”. Aquilo o encantou e resolveu parar – sob protesto. Para ele não importava.

Logo soube que o condomínio Green Castle terá saída para dois lados em um quarteirão, cinco vagas na garagem, espaço gourmet, brinquedoteca, ampla sala de ginástica, área de lazer com piscina, piscina coberta olímpica aquecida, quadras de tênis, quadras de futebol, segurança 24 horas com monitoramento em vídeo, serviços exclusivos, e muito mais. Um projeto arquitetônico “exclusivo” e “moderno” em uma região privilegiada da cidade. Fantástico. Tinha somente a desvantagem de o apartamento ser pequeno – 40 m², dois quartos, dois banheiros, sala, cozinha, área de serviço e varanda. Não era um obstáculo, mas resolveu pensar com calma.

Não podia negar desde já que se sentia acolhido e realizado, pois pensava há muito tempo em mudar de bairro, reduzindo distâncias que geravam muito tormento. Nada melhor então, que morar no novo “coração pulsante” de São Paulo que varre, isola, segrega, entre uma “batida” e outra para garantir a comodidade e a segurança dos novos moradores. Quem liga para isso? No final das contas o que importa é a fluidez para realizar as transformações necessárias ao progresso, seja lá qual for o preço.    

Negócio fechado.