terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Deputado Marco Feliciano quer o holofote sobre si. E sua estratégia obtém sucesso

Alguém ainda dúvida que todas as polêmicas abertas pelo deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP – legenda sob o domínio da Assembléia de Deus) são milimetricamente calculadas? (Não por Jesus, calma).Obvio que Feliciano pavimenta seu mandato com as bandeiras que defende representando a quem o elegeu na Câmara. Mas me refiro ao esforço sobrenatural para estar na boca do povo.

Com uma equipe por trás dele (assim como todos os outros parlamentares), Feliciano aproveita a notícia mais importante/espinhosa da semana ou do mês para fazer algum comentário descabido, geralmente carregado de preconceito e desconhecimento histórico.

Veneno em dose certa. Boa parte da mídia repercute o que foi dito pelo deputado, ampliando os tentáculos dos sociais cristãos que aproveitam o domínio da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados para fazer balcão político. Tradicionalmente nas mãos do PT, o partido abriu mão da CDHM em prol de acordos em nome da problemática governabilidade. “Nunca me passou pela cabeça presidir a Comissão de Direitos Humanos, mas agora, com tanto ataque, até deu vontade”, disse o deputado na época em que sofria muita pressão para deixar o cargo. 

Desde então, Feliciano causou controvérsia e indignação com declarações vis sobre negros, gays, aborto, e, recentemente, Nelson Mandela, colocando seu nome em cartaz neon para mais uma discussão que se desenvolve como um novelo de lã nas redes sociais, nos botecos, nos elevadores, em diversas ONGS, etc. 

As comissões da Câmara aprovam projetos que podem entrar na pauta do plenário da Casa. Entretanto, nenhum projeto envolvendo gays, igreja ou negros chegaram próximos (longe disso) de entrar em debate, pois todos foram desqualificados logo após deixarem à sala da CDHM.

O pastor Silas Mafalafaia já avisou que troca de nome se Feliciano tiver menos de 400 mil votos no pleito de 2014, em que tentará à reeleição para deputado federal. Em 2010, o presidente da Comissão de Direitos Humanos obteve 211 mil votos. Com a CDHM no colo, Feliciano conseguiu o holofote que desejava, aparecendo para seus eleitores, “mostrando serviço” a quem depositou sua confiança nele, e a quem acredita em suas idéias.  

De polêmica em polêmica, Feliciano ganha mais uma manchete, coloca mais um tijolo na parede na sua escalada política que, convenhamos, vai deixando o baixo clero para ganhar alguma significância. Estratégias de guerrilha política, de quem sabe jogar. Feliciano está bem assessorado, conhece os aliados, os alvos, e parece preparado para tudo.

“Fale mal
Mas fale de mim
Não faz mal
Quero mesmo assim” (Ataulfo Alves)

Algumas frases de Feliciano nas redes sociais:

“A podridão dos sentimentos dos homoafetivos, levam ao ódio, ao crime, a rejeição”

“Respondi a deputado que: negro nasce negro, índio nasce índio, mas homossexual não nasce homossexual”.

“Os artistas são a favor do casamento gay. Os intelectuais também são. Resta aos cristãos e conservadores de valores morais lutarem”.

“Pois depois da União Civil vira a adoção de crianças por parceiros gays, a extinção da palavra pai e mãe, a destruição da família”.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Veja dez maneiras de passar o tempo dentro do carro na cidade de São Paulo.

1- Espie de lado as manchetes dos jornais distribuídos gratuitamente nos semáforos. Informação é tudo.

2- Recorra à conversa com um amigo, aquele que é guardado no lado esquerdo do peito, dentro do bolso da camisa Scotch Soda. O smartphone nesse momento é, muitas vezes, a única “companhia”.

3 - O aparelho GPS sintoniza os canais abertos. Neste caso, o problema é se ver na Marginal na segunda edição do jornal da noite, no meio de uma multidão de luzes. Deprime um pouco, é verdade. Melhor ligar o rádio em algum programa de humor.

4 – Para os mais antigos, conservadores, que tal um bom joguinho de palavras cruzadas? Só não vale espiar as respostas no canto inferior, hein!

5 – Utilizar bolas terapêuticas chinesas em massagem para as mãos na busca da integridade mental, física e espiritual. Renovação.

6 – Olhar o celular novamente. Deve ter alguma novidade legal na rede social favorita.

7 –Contar o tempo no deslocamento entre um semáforo e outro para fazer a comparação com outros dias. Estatísticas são sempre bem vindas. Cronômetro na mão: valendo!!!

8- Que tal então ler a placa do carro da frente, refletindo na combinação de letras, números, e nas infinitas possibilidades de aquilo ser um sinal do destino de que tudo vai melhorar, a começar pelo trânsito. Numerologia em alta.  Positividade.

9 - Na descrença do item oito, buzinar afoitamente, e colocar a indignação seletiva para fora do peito, xingando o seu partido político predileto faz muita diferença. Acalma prontamente.

10- Abrir a janela, acenar com a mão, e mandar um beijo de volta para o colega que acabou de passar em alta velocidade pelo corredor de ônibus. Carinho no coração. Existe amor em SP.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os tentáculos da especulação imobiliária

Avenida Faria Lima, São Paulo (SP)
Foto: Fabrício Amorim
Na primeira hora da manhã, uma oferta imperdível ocupava quase toda a página. O anúncio oferecia três quartos, duas suítes, três vagas na garagem. Uma bagatela que proporciona “conforto” e “alta segurança”. O café desceu bem, acompanhado da leitura do título da matéria do jornal e das primeiras linhas, que chamaram menos atenção que o novo empreendimento - tão bem localizado.

No caminho do trabalho o trânsito mais uma vez estava sufocante. O calor dentro do carro era insuportável. Tarefa tranquila para o ar condicionado resolver. Com o rádio ligado, o locutor se esgoelava para abafar a voz de seu companheiro num debate sem pé nem cabeça sobre o aumento do IPTU na cidade de São Paulo.

Loucura urbana misturada à indignação desmesurada. Abaixou o volume. Pagar 20% a mais de imposto incomodava, mas não o suficientemente naquele momento. A insatisfação era maior com a fila de veículos a sua frente que não se movia. Quase todos os dias eram assim. Morar a cinco quilômetros do trabalho não aliviava. Pelo contrário.

A região que foi definida como a “nova” Avenida Paulista no final dos anos 1970, hoje, possui uma “densidade empresarial” que torna todos os dias a selva de concreto um ambiente mais selvagem na “hora do rush”. E há mais espaço para enaltecer o progresso, mesmo que isto tenha um alto custo diretamente refletido na morosidade diária do trânsito por conta do transporte individual. 

Não teve jeito. Mais uma vez chegou irritado, com dor de cabeça. Acalmou-se e ligou o computador, ferramenta inseparável e indispensável. Durante a labuta informava-se através dos portais, links no Twitter e nas páginas do Facebook, sua rede social favorita, onde adora repercutir sua indignação com a política. Entre uma curtida e outra não deixava de notar os anúncios de imóveis colocados perto do lembrete de aniversários que sempre ganhavam um clique, o que também ocorria no Youtube antes dos seus vídeos prediletos. 

Fim do expediente, sexta-feira. Hora de relaxar. Mas só até o almoço de sábado no shopping, geralmente lotado. Até tentou negociar com a mulher e os filhos. Não conseguiu. Bem próximo ao paraíso do consumo, frequentado toda semana pela família, avistou diversas meninas agitando bandeiras e fazendo panfletagem de um condomínio que se dizia inovador, sustentável e que, ainda por cima, era próximo de seu trabalho. Maravilhoso. Era um “sinal”. Aquilo o encantou e resolveu parar – sob protesto. Para ele não importava.

Logo soube que o condomínio Green Castle terá saída para dois lados em um quarteirão, cinco vagas na garagem, espaço gourmet, brinquedoteca, ampla sala de ginástica, área de lazer com piscina, piscina coberta olímpica aquecida, quadras de tênis, quadras de futebol, segurança 24 horas com monitoramento em vídeo, serviços exclusivos, e muito mais. Um projeto arquitetônico “exclusivo” e “moderno” em uma região privilegiada da cidade. Fantástico. Tinha somente a desvantagem de o apartamento ser pequeno – 40 m², dois quartos, dois banheiros, sala, cozinha, área de serviço e varanda. Não era um obstáculo, mas resolveu pensar com calma.

Não podia negar desde já que se sentia acolhido e realizado, pois pensava há muito tempo em mudar de bairro, reduzindo distâncias que geravam muito tormento. Nada melhor então, que morar no novo “coração pulsante” de São Paulo que varre, isola, segrega, entre uma “batida” e outra para garantir a comodidade e a segurança dos novos moradores. Quem liga para isso? No final das contas o que importa é a fluidez para realizar as transformações necessárias ao progresso, seja lá qual for o preço.    

Negócio fechado.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Aviso: você está sendo filmado!

Foto: Fabrício Amorim
O médico recomendou à dona Elizabeth caminhar frequentemente para melhorar a saúde. Que boa oportunidade para sair com Francisco e Josephine, retirando a responsabilidade de Maria, que além das obrigações na casa tinha que passear com ‘Chico’ e ‘Phine’. Mas não os chame pelo apelido. Dona Elizabeth acredita que invocá-los desta maneira pode alterar o comportamento do lhasa apso e da yorkshire. 

Depois de um mês de atividade diárias, Elizabeth já se sentia diferente. Sair bem cedo para caminhar na praça bem próxima de sua casa em um bairro nobre da capital paulista junto com seus amigos tornou-se uma rotina divertida. Entretanto, ficou chocada numa bela manhã de sol ao perceber que a sola de seu sapato estava suja por causa de fezes humanas. Para o excremento de seus cães não ligava muito, se fazia de despercebida, quase não via o cachorro agachado. É um animal, ora. Agora, a mesma atitude vinda de um ser humano era diferente, totalmente desrespeitoso, verdadeiro insulto, e aquilo a incomodava demais. Com isso, iniciou diálogos calorosos com os vizinhos, carregados de revolta. A balbúrdia logo juntou meia dúzia de pessoas e a solução não tardou: resolveram colocaram placas de avisos próximas aos pontos asquerosos: “não faça cocô, respeite as crianças. Obs. Você está sendo filmado”. 

A câmera era um blefe. O aviso, contundente.

Na saída da praça, dona Elizabeth cumprimentou o segurança que, junto a outros colegas, faz o monitoramento 24 horas da rua – que tem menos de 1 quilômetro de extensão. Trajados de roupa social, terno e gravata, capacete e moto, os profissionais comunicam-se diretamente com a base em caso de alguma atitude suspeita ou crime. O pior turno é o noturno. Apesar de nenhuma ocorrência nas proximidades, os moradores sempre intensificam os apelos por cautela. 

Naquela noite, o trabalho era de Edmílson, que não gosta nem um pouco da tarefa naquele horário. O segurança tem dificuldade para dormir durante o dia, no barulhento prédio popular em que vive no bairro do Jardim São Luís. Fora que, jantar antes do trabalho era um dilema: seu recente problema no intestino estava pregando verdadeiras peças de terror na noite fria. Não há um único banheiro em um raio de quilômetros. Quando isso ocorre, sempre pensa em milhares de alternativas, mas não pode ausentar-se por muito tempo: tem que ficar olhando a movimentação da rua silenciosa. Então, a saída encontrada é encostar a moto e escolher o canto mais escuro da praça para se aliviar. 

O mais indicado, no entanto, seria tocar a campainha da Dona Elizabeth, que geralmente dorme em sono profundo, protegido por muros enormes, grades eletrificadas, e, por Edmílson. Mas é claro que incomodar a madame com um pedido 'inconveniente' nem passa pela cabeça do segurança. Assim a vida continua, arraigada pelos ditames paradoxos de quem pode mais. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Rede e o Shangri-La partidário

Marina Silva e Eduardo Campos
Foto: Reprodução
Com os pés fincados nos pilares da sustentabilidade e na defesa dos grupos ambientalistas na criação de sua Rede, a ex-senadora Marina Silva retornou à realidade partidária onde as legendas não diferem no fisiologismo político.

A decepção de parte da militância da Rede, que aguardava a criação de uma agremiação que fizesse uma “nova política”, longe de relações promíscuas e nomes jurássicos, ganhou força com a filiação “simbólica” de Marina no PSB.  

Em 2011, na votação do Código Florestal, 27 dos 30 deputados do PSB votaram a favor da bancada ruralista. No ano passado, o bloco ficou dividido: 16 votos para a tese ambientalista e 9 contra. Com a concretização de uma chapa puro sangue com Eduardo Campos – onde Marina deve ser a cabeça – não será difícil ver a ex-senadora dividindo palanques nas cidades com Heráclito Fortes e Paulo Bornhousen. Na curva à direita na busca de apoio, o PSB já conversa com DEM e PPS, o que pode enfraquecer possível campanha de Aécio Neves – que vê no retrovisor o incômodo José Serra – empolgado pela movimentação de Marina que pode ressoar seu nome no ninho tucano.

Chavismo

Marina está certa ao criticar o casuísmo na tentativa de aprovação no Congresso de projeto que sufocava as novas legendas, diretamente apoiado pelo Planalto. No entanto, falha ao comparar a continuidade do governo petista ao chavismo. “Chávez mudou a lei eleitoral para garantir maioria no Parlamento – mesmo perdendo votos; pressionou a imprensa e a mídia, partidarizou o governo. Nada disso pode ser assacado contra os governos Lula e Dilma, a não ser por aqueles que têm pouca preocupação com a realidade. A própria nomeação de petistas para cargos de confiança não deve ter sido maior que a de tucanos e pefelistas no governo FHC, e, além disso, está muito longe do que fez Chávez”, diz o professor de Filosofia Política da Universidade de São Paulo (USP), Renato Janine Ribeiro.

Teorias de alguns pensadores gastam muitas linhas para mostrar a “progressão do Chavismo no Brasil”, implementada silenciosamente pelo PT. Coisa da América Latina. Na Alemanha a reeleição de Ângela Merkel não é encarada de maneira pejorativa. Faz parte da democracia, ora. A compra de votos para a reeleição de FHC em 1998 parece uma gastrite incurável para quem está na oposição. Oh, dor de estômago maldita! 

sábado, 5 de outubro de 2013

Um Eduardo incomoda muita gente. E com a Marina incomoda muito mais.

Marina Silva e Eduardo Campos
Foto: Eduardo Braga/FolhaPress
Sem êxito na criação da Rede Sustentabilidade, a ex-senadora Marina Silva decidiu ingressar no PSB, consolidando-se como terceira via para o pleito de 2014. É, sem sombra de dúvida, uma grande vitória para o presidente da sigla Eduardo Campos, que acabou com uma aliança histórica com o PT, aproximando-se e atraindo nomes da oposição em um processo de realinhamento do partido.  

A novidade não configura, no entanto, um bom cenário para Aécio Neves (PSDB) que pode ficar de fora do segundo turno, este sim, assegurado. O capital de 20 milhões de votos adquiridos em 2010 por Marina deve levar a disputa para uma segunda etapa desde que a ex-senadora seja a cabeça na chapa puro sangue. É um cenário arriscado para Campos, porém Marina deve projetar a sigla enquanto cria sua Rede. Difícil crer nessa hipótese dadas as claras e legítimas ambições de Campos. Grande parte da população não vota em partidos, mas sim em nomes. Nisso, é certo que os dois quadros devem bater de frente na eleição de 2018 e, por isso, não encaixam na mesma engrenagem por muito tempo. 

O grupo governista, por sua vez, deve estar coçando a cabeça e fritando os miolos. Marina representa grande peso nas urnas e Campos têm muita representatividade em sua base, o que pode levar o PT a perder votos importantes e fundamentais no Nordeste. O cenário em condições de igualdade dependerá muito do desempenho da economia e dos reflexos do julgamento do mensalão, o que se mostrou inócuo na vitória de Fernando Haddad (PT) em São Paulo. João Santana deve estar repensando a "antropofagia de anões", expressão que utilizou para comentar a eleição de 2014 em que crava vitória de Dilma no primeiro turno. A entrevista com o marqueteiro está disponível na Revista Época desta semana.

Com o discurso de “novas idéias e práticas políticas” Campos e Marina tem como alvo acabar com a polarização PT x PSDB. É possível. A argumentação marinista, entretanto, não cola. A Rede nascia dizendo: “somos diferentes”, com a promessa de não compactuar com a ‘mesmice’ política, de não entrar no ‘establishment’.  A realpolitk, porém, tem gosto amargo e Marina deve saber bem disso agora. Segundo Marina, sua decisão levou em conta quebrar a polarização existente no país. Com isso, conversas com o PPS de Roberto Freire já ganham corpo. A opção de Marina no fechamento das portas da filiação partidária (hoje) demonstra a confiança do projeto de uma ‘nova oposição’ em confronto direto com o esgotamento do lulismo – que ainda tem muito fôlego nas urnas. Vai ser interessante. 

Rede

Ficou difícil pensar, argumentar, analisar, conversar sobre a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que barrou a Rede. Em qualquer indicação a favor do TSE, não demorava pra ser taxado de governista, reduzindo a discussão ao ponto zero. A estranheza partiu da aprovação do PROS e do ‘Solidariedade’, partidos que incharam ainda mais o quadro político: são 32 legendas ativas e mais 25 esperando o aval do Tribunal. O provável casuísmo que ajudaria a tirar Marina Silva do páreo perde força, no entanto, ao analisar o tempo que as novas siglas vêm tentando o registro. O PROS, Partido Republicano da Ordem Social é construído desde 2006. O ‘Solidariedade’, de Paulinho da Força, desde 2008. 

A Rede começou a busca de assinaturas e outras exigências a partir do final do ano de 2010. O naufrágio no TSE (6x1) da Rede  não prova que os cartórios eleitorais funcionam bem, nada disso. O sistema sem dúvida tem falhas, morosidade, e o erro de Marina e seu grupo – que agora rachou – foi não ter buscado gordura extra para queimar. Agora, com o ingresso no PSB, resta acompanhar se os sonháticos vão retornar do mundo dos sonhos e aderir a realpolitik. Com os dois pés no chão a política pode ser bem diferente.   

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Campos aposta no esgotamento do lulismo

Governador de Pernambuco
Eduardo Campos (PSB)
O PSB desgarrou-se da base do governo Dilma Rouseff (PT), acabou com uma aliança histórica em diversos Estados em todo país, o que demonstra claramente a ambição do governador de Pernambuco Eduardo Campos em pavimentar caminho para se candidatar à Presidência da República, apostando no esgotamento do ‘lulismo’. 

O afastamento da sigla do PT denota tendência de aproximação com a oposição, que por sua vez, enxerga com bons olhos a mudança de direção de um dos principais aliados do governo. O PT deixou as portas abertas pensando principalmente em eventual segundo turno em 2014. A meta do pessebista é eleger 50 deputados federais (tinha 35 e perdeu 6) para incrementar tempo de TV e fundo partidário para 2018. Para isso, Campos acredita que o descolamento é fundamental para o projeto ganhar corpo e um retorno é muito improvável, como afirmou recentemente a Lula, seu padrinho político que tentou evitar a debandada.  

Antes que o governo agisse, as pastas do Desenvolvimento e dos Portos foram entregues pelos ministros Fernando Pimentel (PSB) e Leônidas Cristino (PSB) e a partir daí as rupturas começaram a aparecer aproveitando o prazo limite para troca partidária, amanhã (5). Cid Gomes, governador do Ceará, e Ciro Gomes, atualmente na secretaria da saúde no governo de seu irmão, deixaram a agremiação e se filiaram ao neófito PROS (Partido Republicano da Ordem Social) que tende a apoiar o governo.

Agora, inimigos históricos do petismo que não escondem seu viés conservador foram atraídos pela sigla liberal. Heráclito Fortes e Jorge Bornhausen assinaram esta semana sua filiação no PSB. Na busca de palanques regionais Campos costura acordos com PSDB, DEM e PPS em 20 Estados. Puxadores de voto do esporte como Romário, Fernando Scherer, Leonardo Moura e Edmundo também aderiram à sigla.

Eduardo Campos, notavelmente um quadro importante na política nacional, percebeu o esgotamento do modelo ‘lulista’, e aderiu ao establishment político visando ser uma opção real de oposição ao governo. Agora, o grande desafio do pessebista será desbancar o PT em sua base. Caso consiga retirar votos de Dilma no Nordeste em 2014, Campos deixará claro que seu papel de coadjuvante rodeando a polarização PT x PSDB será de fundamental importância para o pleito.   

terça-feira, 1 de outubro de 2013

José Serra vai aceitar papel coadjuvante?


Foto: Alan Marques/FolhaPress
O projeto escalonado do ex-governador José Serra desceu diversas escadas após as sucessivas derrotas para o PT. O tucano não fez frente a Lula em 2002, caiu diante de Dilma Rouseff em 2010, e não foi páreo para o novato Fernando Haddad em 2012.

Empolgado com a queda vertiginosa da presidente Dilma Rouseff (PT) após as manifestações de junho deste ano, Serra reapareceu no cenário político e seu destino movimenta de maneira interessante o tabuleiro. De cara, a possibilidade de migração para o PPS chamou a atenção de Serra, mas a fusão com o PMN, que engordaria a sigla, naufragou.

Mesmo com os carimbos no currículo político, o tucano nunca escondeu a ambição de concorrer novamente à presidência da República, o que acarretaria numa disputa interna com o senador e mandatário do partido, Aécio Neves. Com nenhuma outra possibilidade no horizonte Serra adotou silêncio sobre seu futuro que foi encerrado hoje (1), a quatro dias do prazo final para filiações em outras siglas, regra determinada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), um ano antes das eleições.

E, como era aguardado, o tucano não abandonará o ninho. Bater vôo para o PPS, partido com poucas alianças nos Estados, pouco tempo na propaganda de TV e recursos escassos seria uma aventura arriscada e Serra não quer mais descer escadas.

A decisão coloca no ar a possibilidade de prévias, mas Serra sabe que suas chances são praticamente nulas diante de um adversário como Aécio, presidente da sigla que tem o partido nas mãos. Sobra então vagas para a disputa de cadeira no Senado ou na Câmara, tendo a primeira opção grande risco de nova derrota. Outra via seria apoiar Aécio e garantir algum Ministério no governo do mineiro.

Entretanto, quem conhece as bicadas ferrenhas entre os tucanos e o projeto do ex-governador de São Paulo sabe que a permanência de Serra significa confusão. Nomes importantes do grupo serrista já manifestaram em tom de ironia que iriam "apoiar Aécio assim como ele apoiou Serra em 2010". O auxílio de Geraldo Alckmin é dado como certo, porém o governador de São Paulo tentará à reeleição fazendo papel comedido. Com isso, o enfraquecimento das bases paulistas devem prejudicar Aécio  e as bicadas internas devem ser o prenúncio de um ano eleitoral agitado.

A escalada de José Serra rumo à presidência da República no seu projeto cego, sem limites, não permite papel coadjuvante no caminho, e portanto, vai na contramão do partido, batendo de frente com a caravana mineira. É só aguardar. 
ã Câmara, tendo a primeira opçãoum adversleiro.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Travessias

Rio Pinheiros - 1929 (Marginais
foram inauguradas em
1970). 
2013. 
Estressado, o homem não aguentava mais o som das buzinas que o atordoava a cada cinco minutos como se fosse uma orquestra filarmônica desafinada. Sozinho dentro de uma super-máquina possante que soltava fumaça preta a cada aceleração, sua preocupação era grande com o trânsito que o impedia de avançar ao outro lado da Marginal, em São Paulo. “Maldita via”, reclamou - para logo em seguida constatar que não tinha outra opção para atravessar o rio Pinheiros - na altura do Clube Hebraica. Com o relógio apertando seu prazo e ameaçando sua carreira profissional nada era mais importante que chegar naquela reunião. Parado, mas com a cabeça a mil por hora, iniciou percurso pelas estações de rádio em busca de notícias daquela morosidade no fim da tarde. Não encontrou. Sacou seu telefone recheado de aplicativos que lhe dizem até a cor da cueca a ser usada no dia. Entretanto, não obteve nenhuma informação que diminuísse sua angústia. Em mais dez minutos, andou poucos metros e trocou de faixa. Atrás de um caminhão que despejava monóxido de carbono diretamente em seu veículo, protestou novamente com gritos, fechou a janela e ligou o ar condicionado. A ansiedade e o nervosismo tomaram conta de si. Resolveu buzinar por um minuto como se urrasse por locomoção. Desistiu. A reunião estava perdida. O barulho assustou uma capivara, que em um canto do leito do rio se escondeu. O homem nem percebeu.

1513.
Estressado, o homem não aguentava mais andar perdido na mata densa. O som dos passarinhos, como se fosse uma orquestra sinfônica, tornava tudo similar: som e imagem, o que fazia a beleza confundir tudo. Descalço com os dois pés fincados no mato, sua preocupação era encontrar os companheiros perdidos durante a caçada do dia para logo depois atravessar o rio. Tarefa dura diante de uma região quase intocada, repleta de Pinheiros, com poucas trilhas abertas para a circulação.  Respirou. Inspirou. Olhou para uma Paineira enorme, a abraçou e pediu ajuda. Sentado em uma grande raiz, cercado de verde por todos os lados, resolveu seguir paralelo a um feixe de luz quando encontrou o rastro de seus colegas. De volta a trilha, seguiu por onde havia caminhado até encontrar a parte alagadiça do terreno. O rio estava próximo. Ao reencontrar os amigos, realizou a travessia da água com sua canoa. Do outro lado, um grupo de capivaras se alimentava de árvores próximas de seu aconchego. O homem, ao avistar este cenário, pensou com alegria: “Estamos voltando pra casa”.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Favela da Funchal é parte legítima do "glamour" da Vila Olímpia

Rua Coliseu - Favela Funchal
Foto: Carolina Garcia - IG
Quando eu era criança no final dos anos 1980, o aviso de minha avó era contundente: “Cuidado na rua e redobre à atenção ao passar próximo da rua Funchal. Era uma advertência curiosa para filha de imigrantes da Ilha da Madeira, local em que está situada a cidade homônima, mas uma preocupação natural, coisa de avó.  

Naquela época toda a criminalidade registrada naquela Vila Olímpia provinciana era injustamente atribuída a favela e caminhar até o supermercado Vilex já rendia uma sacola de conselhos. Dois deles me recordo bem: “Cuidado com assaltos. E vá pela calçada da esquerda, o outro lado é muito perigoso”, dizia a saudosa velhinha. Realmente, o canto direito da estreita rua Gomes de Carvalho não possuía calçada, era praticamente uma continuação da rua - que seguia sentido Marginal, como hoje, mas com estreitamento enorme após a rua Lourenço Marques.

Dividida entre a parte baixa, onde está à rua Funchal, e parte alta, a partir da rua Alvorada, se criaram dois pólos. Falo de uma Vila Olímpia de muitas casas, ruas acanhadas, pequenos comércios, muitos botecos. Falo de um bairro situado entre a Avenida Santo Amaro e a Marginal Pinheiros que no início do século XX nada mais era do que pedaços de terra de propriedades rurais, loteadas nos anos 1930, iniciando um maluco processo de urbanização da área - atualmente desregrado, sem freios. 

Em meados dos anos 1960, a ocupação da parte alta era total. A parte baixa tinha problemas de adesão porque era próxima ao leito do rio Pinheiros. Nesta região alagadiça surgiu uma ocupação de moradores que perdura até 2013 e que pode ser reconhecido como o único elo com a Vila Olímpia do passado.

Você, que trabalha no décimo-vigésimo-quarto-oitavo andar em um monstro envidraçado na rua Funchal,  sabe onde fica?

A comunidade que possuí 250 moradias, “escondida” pelos gigantes no entorno, é mais um grito de resistência diante da especulação imobiliária promovida pelo capital. Do fundo da rua Coliseu,
100 metros à frente, a realidade é bem diferente e a convivência com os vizinhos resiste, permanece como uma "chaga aberta" para os especuladores sangrentos em busca de "carne". 

Imagine que belo estacionamento para o enorme prédio ao lado daria o espaço de 5 mil m². Ou a área poderia se incorporar ao vizinho de trás, o Shopping JK Iguatemi. Como uma ação de responsabilidade social, o terreno até poderia se tornar uma praça para ser uma opção ao movimentado horário de almoço. Para os vizinhos, pouco importa quem mora ali, como vivem, quais são suas histórias. O capital acumulado não vê rostos, pouco se importa com vidas. Mas em um mundo em que raízes profundas são cortadas por quem pode mais, sempre haverá quem olhe pelo outro lado.

Passando pela base comunitária móvel instalada na entrada da favela – para garantir a segurança dos vizinhos e seus visitantes – encontramos a riqueza até então desconhecida para quem tem medo da comunidade – ou nem imagina que ela existe.

Não há fortuna maior do que ter uma Rosa, líder comunitária que freiou as tentativas de remoção da favela, auxiliou na chegada do saneamento básico. Ou José (Pedro Gouveia), 49 anos, catador de papelão “beatlemaníaco” que transforma as paredes da comunidade com sua interpretação das músicas do quarteto de Liverpool. Ou do que ter  Ana (Cecília Vieira), 29 anos, que monitora a sede de ensino da favela.

Diante das promessas de reurbanização da prefeitura, Rosa, Zé, Ana, e tantos outros aguardam o “reconhecimento de sua existência no bairro”. A favela consta no Plano Municipal de Habitação (PMH), previsto para ser executado entre 2017 e 2020 e é sim parte legítima do “glamour” da Vila Olímpia. É bom que os empresários/especuladores saibam disso.

Do desconhecimento da rua que nasce o preconceito, o caminho para a segregação. De peito aberto, auto estima lá em cima, o morador da rua Coliseu só pode sentir orgulho de ser profundo conhecedor do novo bairro e de uma Vila Olímpia que não existe mais.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Fui chafurdar no lixo e encontrei as "vendas" da justiça

Passando pela lama espessa fui chafurdar no lixo e em meio a resíduos e maus cheiros encontrei a venda dos olhos da “justiça”, deformada e escondida em um canto sombrio.  A escultura homônima em frente à alta corte, há algum tempo, tudo vê.

Agora, surge a preocupação de ser submetido a um olhar parcial, desbalanceado, que delibera acatando a pressão popular, utilizando para seguir esses anseios, uma teoria que prega suposições e “achismos”, ferindo gravemente o Estado Democrático de Direito.

Atualmente, a livre expressão do contraditório, da divergência, também não é mais bem vista. Ora, desconsiderar um argumento de defesa é válido. Não apreciá-lo, discuti-lo, deformá-lo, no entanto, revela que o ponto de vista dos réus não interessa quando se têm cartas marcadas. Não é defender os acusados, mas garantir equidade na balança.


O sumiço da faixa nos olhos da “justiça” inquieta e remete a pergunta que não quer calar: de quem é a verdadeira chicana?  A tramoia que manobra exceções escolhidas a dedo, vai percorrer a esteira da história e, lá na frente, longe das paixões momentâneas, vamos analisar com calma este período onde se tem o domínio do fato.    

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Quanto vale a fidelidade da base?

Fidelidade é a palavra chave para o Governo no momento. A lealdade da base parlamentar para cumprir a agenda do Executivo já não caminhava bem antes das manifestações de junho. Vimos que após os gritos das ruas, a popularidade da presidente Dilma Rouseff (PT) desceu a ladeira, e o cenário piorou. Fechou de vez. Onde pode respingar em si, o sujeito corre. E pra bem longe. É a lógica simples de 2014, que deve surgir em néon na mente dos parlamentares: onde a ventania do povo bater, ele estará lá, ouvindo a massa, rejeitando projetos impopulares junto à seus pares. 

O novo sistema definido pelo Congresso de apreciar os vetos presidenciais de qualquer maneira - mesmo que tranquem a pauta - esquentou o clima de vez e provocou reação imediata. A primeira investida não causou muito impacto. Dilma autorizou a liberação de R$ 2 bilhões em emendas feitas por deputados e senadores vindos do orçamento da União. O dinheiro sempre serviu como “moeda de troca”, mas há alguns meses caciques exigem que o valor seja fixo, acabando com os acordos republicanos em nome da governabilidade. O dinheiro referente às emendas é utilizado pelos parlamentares em seus redutos, ajudando os municípios ou regiões. 

Foi pouco.

O projeto do orçamento impositivo, que obriga o Executivo a liberar recursos para as emendas parlamentares deve ir amanhã (7) ao plenário e pode azedar a relação de vez. De olho no retorno da obediência, Dilma convocou reunião hoje (6) com os líderes das bancadas onde admitiu as falhas na interlocução entre os poderes, sem culpar a Ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti – muito criticada pelos parlamentares - faz tempo. De seu perfil “gerentona”, Dilma prometeu mais diálogo com a base, e marcou novo encontro com os parlamentares no dia 12. A preocupação é válida. 

Na lista de vetos com risco de caírem está o que impediu o fim da multa adicional de 10% sobre o saldo das contas de FGTS na demissão sem justa causa de trabalhadores; a medida provisória do programa - “Mais Médicos”; e a proposta que destina os recursos  dos royalties do petróleo para educação e saúde. O Planalto quer que a receita seja direcionada totalmente a área da educação. Além disso, votações de projetos que desagradam o governo podem perder a direção.

A fidelidade da base vale muito. Significa recuperar o rumo da governabilidade. Tarefa dura depois de estremecer uma relação que não é boa desde que Dilma subiu a rampa do Planalto.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Respeito: 'morreu na contramão atrapalhando o tráfego'

Imagem retirada emhttp://bit.ly/1aMlKr9
Sábado de manhã com sol e logo cedo o carroceiro fazia sua peregrinação diária.

Resolvi abordá-lo.

Simpático e educado, ele aceitou meu convite e veio lentamente empurrando seu instrumento de trabalho para recolher papelão, utensílios, e madeira em minha casa - há duas quadras de distância.

Segui pela calçada e o carroceiro pelo canto da via (na contramão) quando se aproximou uma super máquina, com seu motor possante, vidros escuros, desfilando seu ar suntuoso.

Na calmaria do fim de semana, o automóvel tinha asfalto livre a perder de vista, e mesmo com espaço de sobra para fazer a curva, o motorista fez questão de realizar uma manobra fechada, raspando no carroceiro.

Logo à frente, o carro parou.

Dentro do aparelho móvel de quatro rodas, confortabilíssimo, eis que a porta se abre e saí um homem. Sim, mesmo com a visão prejudicada pelo sono da primeira hora do dia, percebi que era um ‘homo sapiens’ e não um robô.

Revoltado, o motorista desceu do carro fazendo gestos ofensivos, gritando com o carroceiro, que por sua vez, permaneceu estático, sem reação. Ao verificar que estava “tudo bem” com sua máquina possante, o homem de aproximadamente 35 anos, careca, de óculos escuros bateu a porta do carro e foi embora. Certamente, se pudesse, mandaria prender aquele “vagabundo” (proferiu isso em voz alta), para que não existisse mais o risco de tocar em sua máquina - que só falta voar.

É o típico motorista que vive em sua ilha de aconchego rodeado de “tubarões”. O cara odeia táxis, ônibus, motociclistas, ciclistas, e não nega seu desejo de possuir uma via exclusiva para automóveis, pagando menos IPVA, é claro. Faixa de ônibus na Marginal Pinheiros ou outras via, “aff”, é coisa do “PT + CET”. Carroceiro então, nem deveria existir no trânsito, afinal, “esses caras não querem trabalhar”, e só atrapalham o tráfego de quem vai ao trabalho.  

O carroceiro, por sua vez, chama-se Anderson, tem 31 anos, é pai de dois filhos, e com os dois pés fincados no chão morno, lamentou o ocorrido. “É assim sempre. Ninguém me respeita”.  A frase foi um soco no estômago. O respeito 'morreu na contramão atrapalhando o tráfego'. 

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ato pela democratização da mídia em imagens

Um ato em no entorno da Rede Globo, em São Paulo, no último dia (12) reuniu 800 pessoas que pediam a abertura de um debate pela democratização da mídia e restrição as concessões a políticos. Veja algumas imagens da manifestação e leia o texto (aqui)

Manifestantes no início da avenida Chucri Zaidan. Ao fundo, a ponte
Octávio Frias Oliveira (publisher da Folha morto em 2007) - (Ponte Estaiada).
Manifestante picha área de acesso à Globo na entrada lateral da emissora.
Manifestante deixa seu recado.
Manifestantes levaram bonecos dos senadores José Sarney (PMDB-AP)
e Fernando Collor de Mello (PTB-AL). Os parlamentares são donos de
retransmissoras da TV Globo no Maranhão e Alagoas, respectivamente.
Os manifestantes deram a volta na rede Globo e fizeram um ato
simbólico na Marginal Pinheiros queimando os bonecos dos
senadores. No chão, o boneco de Collor, que teria o mesmo
destino do boneco que representava Sarney. 
Boneco representando senador queima na Marginal Pinheiros.

Antes de deixar a Marginal Pinheiros, os manifestantes
estenderam uma grande faixa pela democratização da
mídia.
Anarquistas do "Black Block" desgarraram-se do movimento,  seguiram junto com
50 pessoas na Marginal Pinheiros, e "re-batizaram" a ponte Octavio Frias de
Oliveira. 
Na noite de 12 de julho de 2013, a ponte Octávio Frias de Oliveira foi "re-batizada" com o nome do
Jornalista Vladimir Herzog, morto pela ditadura militar em 1975. 

Entre os diversos cartazes dos manifestantes surgiram mais perguntas do que afirmações. 


Manifestante foi único que lembrou das recentes denúncias contra a Rede Globo feitas pelo
Blog "O Cafezinho". 

Dentro dos quatro muros: manifestantes projetam mensagem no
muro da TV Globo, em São Paulo.
Leia mais sobre o primeiro ato pela democratização da mídia (aqui)

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Manifestação em frente à Globo pede debate sobre democratização da mídia

Manifestantes colocam fogo em
'bonecos' de Collor e Sarney
        As centrais sindicais saíram às ruas em todos os Estados do país, ontem (11) protestando por melhorias nos direitos trabalhistas. Segundo estimativas, o “Dia Nacional de Lutas” registrou 90 mil pessoas em 18 capitais. E o grito das ruas ampliou sua voz e voltou-se contra a grande imprensa. Num ato de menor porte, cerca de 800 pessoas segundo a Polícia Militar reivindicaram a abertura de um debate sobre a democratização da mídia (fim do monopólio midiático), rechaçando também a concessão de rádio e televisão a políticos.

Holograma projetado na Rede Globo
por manifestantes
O alvo da insatisfação foi a Rede Globo e a criatividade dos participantes era demonstrada em cartazes irônicos, bem humorados, que questionavam as recentes denúncias sobre irregularidade com a Receita Federal, além de xingamentos jogados ao vento, desnecessários. A sátira com o tema do carnaval “Globeleza”, também chamou atenção e foi cantada em coro. “Lá vou eu, lá vou eu, hoje a luta é na avenida. Vou derrubar a Globo, feliz eu to de bem com a vida lá vou eu”. Outros ecoavam: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”. Um holograma projetado na parede externa da emissora foi outro ato comemorado por muitos. É a tecnologia utilizada como arma.    

A manifestação teve início na praça General Gentil Falcão, percorreu a frente da Rede Globo pela avenida Chucri Zaidan, deu a volta na emissora parando a pista local da Marginal Pinheiros, onde bonecos dos senadores José Sarney (PMDB-AP) e Fernando Collor (PTB-AL) foram queimados. A motivação do ato contra os parlamentares tem explicação: Collor e Sarney são donos de retransmissoras da Rede Globo em seus Estados.

Atualmente, 80 parlamentares são donos de concessões públicas de rádio e tv, apesar de isso ser vetado pela Constituição pelo artigo 54. Existem diversos projetos pela democratização e pela restrição das concessões, mas nenhum PL consegue obter sobrevida. O último foi apresentado na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC).

Briga de cachorro grande. Mexer com os interesses das sete famílias donas dos principais grupos de comunicação do país e com interesses políticos não é tarefa fácil. Porém, também, não é impossível. Que o diga a Argentina. Promulgada em 2009, a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual, chamada de “Ley de Médios”, rompeu a estrutura midiática por lá ao criar o Conselho Federal de Comunicação Audiovisual; o Conselho Assessor da Comunicação Audiovisual e da Infância; e a Defensoria do Público de Serviços de Comunicação Audiovisual que juntos garantem o direito de “acesso universal a conteúdos informativos de interesse relevante e de acontecimentos esportivos”. Entre os 166 artigos da lei, o artigo 45, “limita a quantidade de concessões a cada empresa atuando para horizontalizar e tornar mais plural e competitivo o espaço de mídia veiculado em concessões públicas” Ou seja, de propriedade da sociedade e não de empresas privadas.

Manifestantes "re-batizam" ponte
Octavio Frias Oliveira. 
No decorrer da manifestação, ao sair da Marginal Pinheiros em direção à Berrini, um grupo isolado de manifestantes vestidos de preto que escondiam o rosto, “re-batizaram” a ponte Otávio Frias de Oliveira (publisher da Folha morto em 2007) intitulando-a de “Jornalista Vladimir Herzog” (assassinado pela ditadura militar em 1975). O fato foi comemorado por cerca de 50 pessoas.

Os outros manifestantes já estavam na Avenida Luiz Carlos Berrini, retornando a praça onde o protesto teve início duas horas antes. Neste momento encontrei com o jornalista Altamiro Borges, presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, autor do livro “A ditadura da Mídia”.

 Na conversa com Miro ele me relatou que considera a legislação argentina na área de comunicação muito progressista e afirmou que a “Ley de Médios” pode servir como um modelo para iniciar-se uma discussão profunda no Brasil. “A Ley de Médios é uma legislação muito avançada, no sentido de quebrar o monopólio midiático, estimular a pluralidade, estimular a diversidade. Temos que fazer todo um debate em nosso país de como construir uma mídia mais democrática, e a lei serve de referência, ajuda”, explicou.

No entanto, toda vez que surgem conversas sobre democratização e restrição, os assuntos espinhosos que causam calafrios nos barões da mídia vão parar embaixo do tapete. “É censura”, esbravejam.  “Deve ser o medo de perder o monopólio”, acredita Miro que enxerga a questão de forma contrária. “A Lei da Argentina garante liberdade de expressão. Ela fala o seguinte, só para dar um exemplo: o espectro da radiodifusão que é concessão pública estava concentrado em duas famílias. A Lei da argentina diz que 1/3 do espectro vai ser para movimentos comunitários, para sindicatos, para entidades de bairros. Isso é o contrário de censura. Isso é garantir liberdade de expressão. Quem censura hoje são os grandes monopólios. Eles censuram a sociedade e censuram os próprios jornalistas”, lamentou.

No final do papo com Miro, já próximo ao desfecho da manifestação, ele destacou a importância do crescimento no entendimento do tema e na reunião das pessoas pela abertura de um debate para o reforço democrático que passa pela comunicação. “Eu acho que esse movimento marca uma reviravolta. Esse tema de democratização da mídia no Brasil, nesse sentido de entender como ela é concentrada, como ela pode gerar um processo de manipulação e deformação de comportamentos. Esse tema é um tema debatido na academia, por alguns sindicatos. Essa manifestação mostra o seguinte: tem muito mais gente querendo entender desse tema. Tem muito mais gente percebendo que discutir mídia é discutir democracia no país, então eu acho essa manifestação histórica”, finalizou.

Ás 21h da noite, os manifestantes concentraram-se novamente na praça, tocaram instrumentos de percussão e comemoraram o fato de à Globo ter noticiado a manifestação. “Não somos invisíveis, a Globo passou nosso movimento ao vivo”, disse um rapaz ao megafone. Com o início da dispersão do pessoal, encontrei com a porta voz do Movimento Passe Livre (MPL), Mayara Vivian, que reafirmou o que vem dizendo. A pauta do MPL é pelo direito à cidade e pelo transporte. No entanto, a estudante de geografia enfatizou que apóia a luta do movimento. “Aqui tem o pessoal do teatro, tem o pessoal de mídia, o pessoal de rádio, que tem suas pautas também e vão aos nossos atos, mas eles que estão tocando essa luta. Essa luta é deles. A gente sempre se conversa, estamos solidários, assim como a gente sempre conversa com o MST, com o MTST, com o sindicato dos metroviários. Eu não vou no trabalho de base dos metroviários, mas a luta deles a gente apóia”.

A conversa entre esses movimentos ainda deve agitar muito o Brasil. Quem está no inverno, lembre-se: estes jovens já estão na primavera.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Convida a gente pra dançar. Mas chega de lambada.

Imagem do Jornal do Dia em
http://bit.ly/174Nu4B
Atordoado pelos acontecimentos de junho de 2013 e pelo bombardeamento da grande imprensa, da mídia independente, e das redes sociais, é difícil escrever sobre os últimos 40 dias quando ninguém sabe ao certo qual o ritmo da dança. O período de contestação, no entanto, permanece ativo, e tende a ser explicado por reflexões, estudos aprofundados, livros que certamente vão registrar este momento da história.

A grande vitória do Movimento Passe Livre, verdadeira conquista para os paulistanos, deflagrou uma mala cheia de insatisfações em todo o país. Todos têm a sua. Não se trata mais de R$0,20, e, sim, de demonstrar todo o descontentamento sobre diversos temas, contra algumas instituições públicas e até privadas.

A dissonância atinge a polícia, os políticos em geral e respinga na grande imprensa. De acordo com pesquisa Ibope divulgada pela ONG Transparência Internacional, 81% dos brasileiros consideram os partidos corruptos ou muito corruptos. Segundo o mesmo levantamento, 56% dos cidadãos acreditam que o governo não consegue combater a corrupção. Os números revelaram que os partidos políticos, o Congresso Nacional e a polícia são considerados as instituições mais corruptas do Brasil. A Igreja (33%) e as Forças Armadas (30%) foram às instituições mais bem avaliadas. 

Independente do possível conservadorismo da pesquisa, os resultados são sinais que os pilares da nossa jovem democracia começaram a ruir e necessitam de uma reforma urgente e séria. Os gritos da rua exigem a lavagem da roupa suja de uma vez só, sem amaciante, tirando o atual sistema da sua zona de conforto.

As manifestações atingiram em cheio o sono de alguns políticos - e ainda tira. Caiu batata quente no colo de todos, que ou passavam o problema adiante, ou tentavam cozinhá-lo. Para não voltar muito no tempo, desde 1988 a distância que há entre representados e representantes só aumenta e é tão grande que o grito do cidadão não ressoava. Ou era ignorado. O sistema político polarizado entre PT x PSDB levou uma chacoalhada da força que emergiu das ruas e a resposta tardou. Só apareceu no final do mês. 

Primeiro veio a presidente Dilma Rouseff (PT) que propôs discussão sobre propostas envolvendo responsabilidade social, saúde, transporte público, educação e reforma política. A Constituinte que naufragou em 24 horas, levou consigo o plebiscito que deveria consultar a opinião do povo. Mas já foi afogado pelo Congresso.

As casas legislativas, por sua vez, tentam emplacar o maior número de projetos possíveis até o recesso no dia 17 de julho. O que transforma corrupção em crime hediondo, por exemplo, foi aprovado pelo Senado e encaminhado para apreciação da Câmara. O mesmo acontece com a discussão sobre o fim do voto secreto.

É surpreendente, mas em dez dias o Congresso apreciou 19 projetos que estavam estacionados no Legislativo, empoeirados. A estratégia da “agenda positiva”, como diz os jornais, é clara: votar a maior quantidade de matérias, demonstrando produtividade na tentativa de “abafar” a voz reivindicativa. 

Até o momento avançou o fim do foro privilegiado, a destinação dos royalties do petróleo para saúde (25%) e educação (75%), e foi oficialmente arquivado a PEC 37 (que esvaziava o poder de investigação do Ministério Público) e o projeto apelidado de “cura gay” que previa tratamento psicológico para homossexuais.

Não cabe neste texto destrinchar cada tema (como o erro no clamor pelo arquivamento da PEC sem a discussão adequada), mas pensar na produtividade do Congresso e na reforma política. Com tanto trabalho nas últimas semanas o Legislativo só prova que fazia “corpo mole” perante assuntos de extrema relevância. Estava tudo bem, afinal. Para eles.

As alianças, conchavos, acordos que são naturais na política possuem contornos acentuados, perniciosos, deixando de lado a representação do sufrágio. O voto puro e simples desprovido de uma boa doação para a campanha do político é só mais um número, visto como fundamental no período eleitoral. Só.

O apoio de grandes empresas dita o tom da dança para posteriormente lobistas requebrarem nos gabinetes do Congresso. O paraíso para suplentes, lobistas, políticos de carreira tem que ter um fim e o plebiscito, a consulta ao povo seria a forma ideal para reformar o sistema político ao som de uma dança que todo mundo conhece o ritmo. Qual vai ser?  O povo quer opinar e participar da mudança. Reforma já! Chega de lambada.  


Manifestação sem partidos e a greve geral de 11 de julho

Indignados de plantão, muita calma!

O grito que ecoa das ruas, “sem partidos, sem partidos”, é porta escancarada para um processo anti democrático. Sair as ruas achincalhando bandeiras/partidos faz o jogo de grupos nacionalistas, de extrema direita que só querem desestabilizar e provocar confusão.  

Amanhã, (11) as centrais sindicais prometem parar o país. Mas não unidas em busca propósito único. A CUT deve levantar bandeira relacionada ao PT a favor do plebiscito, além de outras reivindicações, e a Força Sindical, cada vez mais ligada ao PSDB fará movimento contrário. Diversos atos de outros grupos também estão marcados para amanhã, como um contra a Rede Globo, em São Paulo. Enquanto o ritmo em Brasília é lambada, no resto do país se toca um ritmo com sentido - mas ainda fora do compasso.

sábado, 25 de maio de 2013

Favela do lado de 'cartão postal' não pode. Mas no Jardim Edite, Brooklin, o lado mais fraco venceu

Jardim Edite. Brooklin.
Ao lado, a ponte Estaiada.
foto: Fabrício Amorim
Bem estar pelo respeito à cidadania. Por uma redução da desigualdade gritante que durante séculos assolou, e ainda assola, milhões de pessoas. A miséria não é admissível em uma sociedade que os benefícios sociais são direito de todos, seja qual for a classe social ou posição hierárquica.

Nos últimos textos este blog tocou em temas sensíveis, espinhosos, mas que procuraram ser mais um norte, um singelo reforço na busca de uma reflexão sobre o Bem Estar, a Cidadania (conjunto de direitos), e as minorias. Um monte de besteiras para os defensores do neoliberalismo feroz. Um monte de palavras que ajudaram a enriquecer o debate para muitos outros.

Ao escrever sobre estes assuntos solto um grito da garganta que ficou preso - que preciso colocar para fora de qualquer maneira. Em uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo (21/05), o cineasta Constantin Costa-Gravas, prestes a lançar seu filme “O Capital”, no Brasil (31 de maio), foi questionado sobre suas ‘inquietações políticas’, e respondeu: "Minha mãe sempre me dizia: 'Nunca se meta com política!'. Jamais pertenci a um partido ou defendi uma ideologia, mas é preciso se posicionar, deixar claro se você está do lado do mais forte ou do mais fraco. A indiferença é confortável, mas paga-se um preço muito alto por ela".

O cineasta foi preciso. Não é possível ficar em cima do muro ou muito menos se esconder. Mesmo adotando a submissão, algum lado é preenchido. No meu caso, o grito definitivo em favor de uma posição foi dado em 2007 com o início da ameaça de remoção da favela do Jardim Edite, localizado na cidade de São Paulo durante o governo Kassab. Neste triste episódio de tentativa de segregação (que ocorreu e muito nesta última administração), o final será feliz. Pelo menos se encaminha para isso.

E não foi fácil. Foram anos de batalhas judiciais na luta contra a prefeitura, em um embate que até o Ministério Público do Estado de São Paulo intercedeu. A favor das famílias, claro. Até o início de junho,  180 famílias (eram quase 800) retornarão ao local em que residiam na favela, agora urbanizada. Os prédios terão no seu entorno uma creche, uma escola técnica e uma Unidade Básica de Saúde (UBS), além da ponte Octavio Frias de Oliveira, popularmente conhecida como ponte ‘estaiada’, da Rede Globo, e de diversos monstros envidraçados que quase tocam o céu. “Os favelados invadiram e ganharam o apartamento. Eu também quero”, alguém irá vociferar. Sem contar os comentários preconceituosos, que é melhor não escutar e preferível não ler. Bom para a saúde do estômago, acredite. É importante enfatizar que os moradores quitarão suas casas em até 25 anos, de acordo com a condição financeira de cada um. Esta conquista é a concretização de um sonho e um suspiro de esperança contra a exclusão.    

Com as habitações devidamente ocupadas voltarei a falar sobre o assunto no blog. E este será o novo direcionamento. Continuarei abordando temas políticos, sejam eles quais forem, principalmente com este cenário antecipado e pujante. Desta vez, haverá atenção especial a temas que envolvam direitos humanos, direitos políticos, e a interferência do Estado na economia. Enfim, assuntos levantados por um chato e hipócrita. Em outras sociedades, debater, discordar, protestar é essencial para o crescimento de um país. Por aqui, muitas vezes, o cara é um “desagradável” que deveria sofrer uma ‘lavagem mental’ para não escrever tanta besteira. O pensamento crítico incomoda e nem ao menos é contestado de forma coerente, porque o texto não é lido. É a correria do cotidiano, vai, justifique. Neste caminho cheio de curvas, sigo na contra mão do pensamento individualista e meu combustível é o que deixa meu coração palpitante, meus olhos saltados e minha mente em erupção.